No meio do
Tanque Velho tinha uma cisterna sem fundo, um abismo dentro d’água feito para
engolir menino ruim, cabra safado e tudo mais que não tivesse serventia. Eu
cresci por lá, tomando banho naquelas águas barrentas junto com a molecada da
turma do focinho, da Junça e Baixa Funda. Todo domingo quando dava meio dia e o
chão ficava tão quente a ponto de se tornar impossível ficar parado descalço sob
o sol, a gente acabava o baba e se picava pro Tanque Velho ‘pra pegar verme,
arrumar briga e falar descaração’, como dizia meu pai.
Entre nós
tinha quem duvidasse da história da cisterna sem fundo, como o Titica, que ia
pro meio do açude e dava mergulhos demorados só pra deixar todo mundo com o cu
na mão. Tinha quem só ficasse pelas beiradas e os que nem molhavam o pé, mas iam
lá mesmo assim.
Eu passei
minha infância inteira lutando contra três grandes medos:
1 1.
Virar (ou
enfrentar) um lobisomem;
2 2.
Me afogar
no Tanque Velho;
3 3.
Não namorar
ninguém, respectivamente.
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(Acajutiba) |
Caso não
entenda as razões desses receios, leia Homenino e A Terra não é nossa, porque hoje vou falar de como escapei de ser um pequeno Zé – ou um Zé Pequeno – ao invés de
Ni Brisant.
A mais
extraordinária combinação de movimentos que um homem pode executar corresponde a
lutar pelos seus sonhos, suportar a violência das quedas, aprender a erguer-se
e, ainda que fracasse, conservar a cabeça erguida e o coração quente. Eu tive
que aprender bem cedo isso tudo, mas vivi para contar.
Acha que
estou exagerando? Pois bem, vamos aos fatos!
Tenho poucas lembranças da infância; acho que sou velho desde pequeno, então vou contar de onde sei.
Bicicleta não
era brinquedo. Era um artigo de primeira necessidade para os moradores do
Barreiro. Mais prática e econômica que o cavalo, logo a magrela se tornou um
item obrigatório; toda casa tinha pelo menos uma.
Para a
molecada, era um luxo ter um camelo só para si, um símbolo de status – tipo
carro hoje em dia. Mas para mim, a bicicleta significou bem mais que um meio de
transporte. Não fosse essa invenção, eu teria deixado a escola antes de ser
gente, sem rir minhas alegrias e sofrido minhas perdas, certamente teria me tornado um cara
com poucas cicatrizes e bem menos felicidade.
Escola
Municipal Professora Carmem Celina Leal Vita, essa era a minha reza, a oração
que eu gravava nos cabeçalhos das provas para purgar o pecado de ter nascido
pobre, acajutibense e sem jeito com a tabuada. Aquela sala, de paredes amarelas acinzentadas, era tudo, menos uma escola.
Em 96,
enquanto a maioria da classe repetiu de ano, eu passei para a quarta série do
ensino fundamental. Ao invés de comemorar, eu chorei. Só havia turma até a terceira
série na escola do Barreiro, logo, se eu quisesse continuar estudando, teria que
arrumar uma bike para chegar até a escola mais próxima dali, no São
José.
O personagem
de Shakespeare daria seu reino por um cavalo. Eu troquei minha primeira roça de
mandioca por uma bicicleta e fui para a escola.
Àquela altura, aprender a escrever o nome já era lucro. Ninguém disse que eu deveria continuar estudando; Ninguém me convidou para entrar em outra escola; Ninguém disse "pedale, Ni". Mas eu queria saber. E eu pedalei.
Minha rotina era quase morrer. Para me livrar do marasmo, eu brigava com meu amigo Railton, escrevia bilhetes amando todas as meninas do colégio; e para manter a fama de doido, eu descia a ladeira do Cumbe com as mãos soltas e gritando "groselha".
Como Christiane F, aos 13 – eu não tinha me prostituido – mas já tinha experimentado todas as drogas disponíveis no Barreiro. Ou seja, tinha fumado tabaco, tomado pinga com caju, pinga com coco, pinga com casca de pau, pinga com água... Mas eu gostava mesmo era de tomar geladinho. Meu sabor predileto? Todos!
Muito tempo depois, em São Paulo, um amigo disse que adorava beber e andar de bicicleta, eu concordei quase chorando de saudade do Barreiro.
Bem, já tive
bicicleta de todos os tipos, das que rodam e das que deixam na mão, das que
brilham no escuro e das que enferrujam na luz.
A energia elétrica trouxe a Globo para o Barreiro, mas eu senti que o progresso havia chegado por lá de verdade no dia em que furtaram minha bicicleta; pensei, "é a globalização, que porra!" Mas era sério. Nunca recuperei minha 'ferruginha'.
Eu pedalava para ir
às festas, para jogar bola e para disputar as ‘maratonas’ da Vila Morena;
pedalava para ver minha mãe, para encontrar meus amigos, atentar as meninas. E,
acima de tudo, eu pedalava para sair do lugar, para fugir de uma realidade que
minhas forças não podiam alterar. No fim, pedalei para pegar um ônibus. Mas isso
é outra história.
(Continua)