sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tristes contrastes

"Aqui, se plantando, tudo dá!" Quem dera as coisas fossem tão simples como este clichê nacional sugere. O quarto maior país em extensão territorial se transformou num imenso estaleiro de segregação, hipocrisia e intolerância. Uma nação construída a partir da miscigenação étnica, ironicamente, é uma baía de racismo e de preconceitos camuflados nas entrelinhas de discursos polidos e bem intencionados. Crimes hediondos são cometidos e julgados sob a proteção da herança maldita do escravismo.
(Flávia Barros - Nação)
Praias, serrado, pantanal, florestas, enfim, o Brasil é com certeza um país abençoado por Deus. Mas e daí? Na maioria das vezes são os "gringos" quem aproveitam tudo isso. Eles chegam aqui curiosos e afoitos para conhecer e desfrutar de nossa música, iguarias culinárias, crianças, entre outras riquezas naturais. A beleza e a fartura de recursos naturais se tornaram eficientes desculpas para alimentar a inércia e o raquitismo intelectual do povo brasileiro. Tudo é lindo. Tudo vai bem. Se não vai, paciência! É a vida!
O conformismo é sustentado por "Sociedades Anônimas" que exibem propagandas de um lugar fantástico, perfeito para ser feliz, ao passo que ignoram a engrenagem estabelecida de um legado de corrupção política, péssima distribuição de renda, políticas públicas desleais e um estado de "pão e circo" revoltante. Ora, é preciso agir. Deixar este saudosismo romântico e imbecil que nos aprisiona a um ideal de pátria imaculada e perfeita por si só. Faz-se imprescindível a interferência consciente da população sobre as decisões que regem o seu próprio destino. A partir daí teremos a exata noção de como somos afortunados em viver em um país verdadeiramente rico e abençoado.
Cada um de nós tem a responsabilidade inerente de zelar pelo patrimônio do nosso país e assegurar que as próximas gerações conheçam e tenham condições de desfrutar de tudo que temos. As riquezas podem até ser naturais, mas não são eternas e cada vez são menos nossas*.

- Escrevi este texto em outubro de 2008 enquanto cursava o último semestre de Letras. Encontrei-o no meio de vários rascunhos e anotações daquela época que me fizeram relembrar do entusiasmo ingênuo e apaixonado da juventude, das discussões acadêmicas sobre utopias e outras maravilhas.
Após me rever nestas palavras, consigo encontrar uma  dose de equívoco nas convicções de outrora, mas também vejo que é necessário manter viva toda fé e amor que o coração puder suportar. Entendo que para ser feliz é preciso conservar uma certa porção de ingenuidade em nosso espírito. Cada dia eu me convenço mais de que a nossa verdadeira força está na comunhão, no respeito e na união de ideias e valores diferentes.

* Texto também publicado em: Acajutiba News - Nivaldo Brito.

Nuvens - A felicidade mora numa encruzilhada

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Diário de bordo (dia 13)

Domingo, 13 de novembro de 2011. Antes que a chuva molhe a terra da garoa, a Casa Fora do Eixo se transforma numa locomotiva frenética de cultura, música e ideias perigosas. Não há expectativas. É tudo ao mesmo tempo agora!
O movimento orgânico e coletivo articulou no bairro da Liberdade uma incrível torre de Babel, provando que no coração de São Paulo circula o sangue do mundo inteiro.

Foi engraçado desfrutar de sotaques baianos, paulistas, noruegueses, cariocas, pernambucanos, canadenses, mineiros, cuiabanos... Tudo ali, junto, misturado, lindo!
O pré-lançamento do Tratado sobre o coração das coisas ditas foi, acima de tudo, uma ocasião para reunir os amigos, brindar à Arte e celebrar a vida.
Foi emocionante compartilhar esta conquista com pessoas tão queridas, gente que faz parte da minha história e fez todo esforço possível para prestigiar o evento. Bacana também fazer novos aliados, ouvir a opinião de leitores e conhecer ainda mais pessoas que acreditam no meu trabalho.
Os parceiros que não puderam comparecer também foram lembrados. Alguns participaram do processo de elaboração do livro e com certeza, embora não estivessem fisicamente ali, enviaram toda a positividade necessária para que tudo ocorresse da melhor maneira.


Para comprovar o sucesso do Tratado, basta dizer que mais de 50% dos exemplares foram vendidos logo na primeira semana. No entanto, a maior façanha deste projeto foi produzir um livro independente, com alta qualidade estética e material. Uma obra verdadeira, bonita, sensível e preocupada com a linguagem e as questões dos nossos dias.

Os problemas não dão trégua e as lutas são constantes. Gastamos tempo demais "batendo cartão", superando fracassos e enfrentando os perrengues que a vida nos impõe. Mas aí quando conquistamos algo pelo qual lutamos muito e temos um motivo para comemorar, então devemos fazê-lo... Este é o meu momento. E eu estou muito feliz por ter conseguido publicar este livro, de coração.
Chegar aqui foi mais difícil do que parece. Tenho a noção exata do que este livro representa. Este triunfo não é só meu. Sei o quanto minha família e meus amigos estão orgulhosos de mim. E eu sou muito grato por todo apoio e reconhecimento que tenho recebido. Não sou tão forte quanto pareço ser. Preciso que saibam que é muito importante tê-los ao meu lado. Juntos, iremos ainda mais longe. E vamos!

O dia 13 de novembro de 2011 foi um dia feliz. Vou sempre lembrar desta data com carinho. Mas este é apenas o começo. Não serei o escritor de um livro só. Nem vou me deixar corromper pela soberba ou pela arrogância típicas dos "vencedores". Eu sei quem sou, de onde saí e principalmente, eu sei que não estou sozinho.
Os dias difíceis voltarão, novas quedas se aproximam e terei batalhas ainda mais duras a travar. Mas não importa! A minha glória é o próprio combate. E eu não me rendo. Não me rendo não!

O Homem do Futuro - Tempo Perdido (Legião Urbana)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Crimes

(Erick Silva)
Não existe bom combate
quando o sangue de um puro ilustra o mal
e a vitória não significa paz, nem libertação.
 
Justiça e vingança são ilusões de ótica,
embora a morte se ache uma justa consequência,
a sina do vil matador já é estar cativo à sua própria alma
sempre que a consciência castigar o crime aniquilando a paz
e a boca mastigar convicções arrependidas e irreversíveis,
enchendo a carne de estigmas barbaramente sagrados.
 
Quando o silêncio de não ter nada a esconder
for confundido com o cinismo de segredos imundos,
nem a razão mais sincera justificará o extermínio de uma vida,
ainda que sob o argumento de consolar um erro igualmente mau.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Retrospectiva antecipada

Não caio na armadilha de achar que "venci na vida", mas preciso reconhecer, este é um tempo de coisas boas, de grandes sonhos.
Não cheguei ao topo, nem precisei me tornar o "Number one" para me sentir o cara mais feliz do mundo.
No dia em que desembarquei em Sampa, tive tanto medo que achei que não suportaria a saudade, o frio, as incertezas. Agora percebo o quanto as quedas moldaram o meu espírito, as angústias fortaleceram o meu caráter e, justiça seja feita, não cheguei até aqui sozinho.
Minha aventura em Sampa nem sempre foi de alegrias, mas foi aqui que conquistei meu tão almejado "canudo", fui para os melhores shows da minha vida, casei, separei (esta é uma das partes ruins), vi minha filhinha nascer e na última semana acompanhei a edição final do meu primeiro livro...
Hoje liguei para minha mãe, falamos sobre a vida; ela me deu os conselhos de sempre e no fim, disse algo que inundou os meus olhos, fato raro: "Antes eu rezava pra você voltar pra casa, meu filho. Mas agora eu entendo que seu coração é grande demais... você é um artista, Ni. É bom ser sua mãe."
Numa hora dessas, eu quase caio na tentação de pensar que sou um cara de sorte e que realmente estou satisfeito com o que consegui.
Mas não, eu apenas comecei!

Toca Raul!

domingo, 16 de outubro de 2011

Consolo

(Paulo SS)
Outro cigarro faleceu em sua boca
e materializou a fuligem do prazer
coreografando o infinito em seus dedos.
Mas antes, a chama que o engoliu
acariciou todo o seu desgosto
com a euforia de um cego paralítico
que, conquistando o primeiro passo,
goza a inédita volúpia de correr
e vai na direção dos abismos mais longos
sem sonhar que seu gozo é a desgraça,
um passaporte para o esquecimento.

domingo, 2 de outubro de 2011

Caso rock

(Flávia Barros - Escape)
Você destrói meu coração,
para me paralisar;
Engessa o meu corpo,
tentando me domar.

Quando me livro dos teus medos,
não tenho mais nada a perder;
Minha queda é uma dança,
não tente me erguer.

Oh garota, vou embora daqui.
Hey louca, nem pense em me seguir.

Teus truques me divertem,
e eu até sinto prazer;
Tuas promessas são grades,
não vão me prender.

Meu ritmo te excita,
e até a luz se apaga;
Quando assumo o controle,
não penso em mais nada.

Oh garota, vamos repetir.
Hey louca, não tente resistir.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Reflexão da última hora

A maldição do vencedor é ser eternamente aplaudido por derrotados.

(Flávia Barros - Mesura)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Missão

Meu triunfo é moldado sob a cólera da justiça.
Minha arma é escudo revestido por coragem.
A minha glória é o próprio combate.
E enquanto a razão da minha luta
mantiver o ideal de pensar livremente,
moléstia alguma corromperá o meu espírito.

(Erick Silva)


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ilustres

Gente com estilo próprio, que se garante e acredita no valor da sua Arte. Este é o esquadrão dos Ilutres, os artistas selecionados para compor o livro Tratado sobre o coração das coisas ditas:

Na linha de frente do estúdio Hori-wa!, Chosa assina as mais fantásticas tatuagens da Zona Leste de SP. 
Dona de um traço preciso e apurado, esta garota não se deixa enquadrar pelos padrões convencionais e emprega uma perícia sofisticada para elaborar desenhos exclusivos, cheios de graça, movimento e cor. 
 
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Aprendiz de design gráfico, Erick Silva mostra que já tem personalidade formada e, seja nas ilustrações ou nas fotografias, conserva uma atitude audaciosa e engajada. Seguindo a linha das melhores HQs japonesas (ou não), basta-lhe um lápis afiado para que grave no papel seu modo peculiar de ver as pessoas, o mundo e a vida.
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Uma jornalista que sonha em assumir as baquetas de uma banda de rock ou uma mãe tentando escapar do mundinho corporativo enquanto cria ilustrações nonsense? Esta é Flávia Barros, a artista-multifuncional que encontrou no design gráfico uma maneira bacana de representar a alegria do seu espírito juvenil. Idealizadora da loja Imaginado Efeito, Flávia  cria e produz quadros fascinantes feitos no azulejo.
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Agitador da cena cultural paulistana, Marcelo Gerace está entre os artistas plásticos que mais compreendem a linguagem e as aspirações do nosso tempo. Seus projetos, carregados de provocações essenciais, levantam e discutem ideias que permitam novos processos criativos, experimentos e parcerias. Biólogo e professor de Artes, ele se define como um antropófago faminto. Pois bem, que ninguém sacie esta fome tão imprescindível.
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Fã de Keith Richards, pai do Pedro, guitarrista da Couro Cabeludo Rock, criador do Blues Tattoo Studio, entre outras façanhas não menos importantes. Este cara atentado é Paulo SS. Suas tatuagens podem variar de acordo com o gosto dos fregueses mais exóticos e inusitados. Suas ilustrações não. Nestas prevalecem seu estilo ultra-realista, repleto de desenhos instigantes e composições meticulosamente elaboradas.
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Ignorando as fronteiras invisíveis que as megalópoles sustentam, Tigão desafia a lei da gravidade, entre outras, para encobrir de esperança os tons azedos que empalidecem as ruas e fachadas de São Paulo. Ele não escolhe superfícies para imprimir a bravura do seu talento, um dom completamente acima da arrogância e vaidade que lotam de bobagens os ateliês e museus.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Tratado sobre o coração das coisas ditas

Acordo e me pego no abismo de sempre
com cicatrizes de alegrias forçadas no rosto
levanto para travar lutas de conquistas obrigatórias,
enquanto penso num modo de dormir em pé
evito a tentação dos acordos que a rotina
oferece para uma rendição pacífica e covarde
em seus cemitérios de cérebros e corações.

A vida ainda impõe identidades que não me servem
e para não ser vítima do meu próprio reflexo,
me invento na fuga diária do óbvio,
do tédio e deste vil destino volúvel;
e é aniquilando frases pré-fabricadas
que converto as ficções mais reais
em armas incendiárias de sentidos.

Escrevendo me aproximo de ser gente,
faço uso da coragem e dos sonhos que alimento
para crer numa improvável chance de dignidade
que me livre de meus vícios sádicos e impublicáveis,
defenestre toda timidez cabisbaixa e insegura;
transgressão que dê entendimento a quem quer saber
num tratado sobre o coração das coisas ditas.

Faço da palavra minha pátria, arte e coração.
Gravo estas insígnias no meu corpo e expresso
uma matéria legítima de liberdade e resistência,
o mais potente combustível capaz de mover:
funde sangue, punhos, suor e flores
para gerar uma energia tão infalível
que já não pode ser representada.

Feito idioma exótico, minha expressão é signo raro
compreendido apenas pelos imprescindíveis desajustados,
pelos manos mais intrépidos e necessários.
Meu manifesto é para quem tem algo a dizer,
quem ousa pensar na vida e segue combatendo
ainda que pareça derrotado e já sem forças para existir.
Luto contra toda opressão oficializada em máscaras de paz
e mesmo que abatido, eu não me rendo. Não me rendo não!

(Marcelo Gerace)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Vamos fazer o nosso livro!

Uma obra capaz de reunir textos pulsantes e afiados, além de divulgar a expressão de artistas independentes, valorizando a diversidade de manifestações e pensamentos. A partir dessa proposta simples e ousada, surgiu o projeto “Vamos fazer um livro?”.
Inicialmente sem grandes pretensões, esta iniciativa já mobilizou e atraiu os olhares mais atentos, de quem não se sente representado (nem visto) na cena cultural e literária do nosso país.
O título escolhido, Tratado sobre o coração das coisas ditas, sintetiza a idéia original de mostrar a essência e genuinidade dos sentimentos mais honestos, através de uma linguagem peculiar, sem eufemismos ou frases feitas.
Logo, a interrogação do post anterior se converteu na certeza de que as palavras saltarão da rede para o papel em grande estilo.
Sim. Vamos fazer o nosso livro!
Coragem!

domingo, 26 de junho de 2011

Vamos fazer um livro?

Essa é a chance de divulgar sua Arte e colaborar na publicação de um livro feito para quem tem algo a dizer, quem cresceu, mas não desistiu de ser grande.
Eu vou entrar com os textos. Título, ilustrações, comentários, enfim, o resto é contigo!
E aí, estamos juntos?
(Eugéne Delacroix, La Liberté guidant le peuple)
Escolha o título do livro que quer ler:

Na barra lateral há três opções para o título:
- Outras Versões Não Identificadas;
- Tratado sobre o Coração das coisas ditas;
- Palavras Armadas (no verso).

(P.S. O título mais votado foi... Tratado sobre o Coração das coisas ditas).
Imagem e diferença:
Arte é sempre uma edição limitada e pessoal, algo que nunca poderá ser repetido, igualado ou corrompido. Portanto, esta é a hora de registrar seu talento em algo que vale a pena, algo feito com o coração.
Desenhe sobre o que quiser. Mas se precisar de inspiração, elabore seu trabalho a partir de um texto já postado no blog e envie a imagem (em alta qualidade) juntamente com o título do post. Quanto mais enviar, melhor!
Desenhe e assine:
Pinturas, ilustrações, gravuras ou qualquer outro desenho (simples ou não) que possa ser colocado no papel. O importante é que tenha sido feito por você, que represente um pouco da sua postura diante do mundo e das pessoas. 
Você é o responsável pelo que faz, sacou?
Para garantir uma boa qualidade na impressão, recomendo que faça algo com traços bem definidos e de preferência, sem muita variação nos tons. 
(Almeida Júnior, Moça com Livro)
O material gráfico deve ser enviado para o e-mail: nibrisant@bol.com.br. Não esqueça de especificar os créditos das imagens, certificando que poderão ser utilizadas no livro.
O valor:
As colaborações não serão remuneradas, funciona como uma troca direta de colaboração e exposição. As imagens selecionadas serão publicadas no livro com seus devidos créditos ao autor das mesmas.

Serão participações muito bem vindas de pessoas com vontade de mostrar seu talento, de se expressar livremente, transmitindo suas visões e seu jeito único de encarar a vida.
 Antes que o mundo acabe:
Os próximos anos serão os melhores, neles escreveremos as histórias que realmente merecem ser contadas, cantaremos nossas próprias canções. Vamos acreditar nos sonhos que quisermos e escrever os livros que queremos ler!
Vote, exponha-se, mostre para o mundo a Arte que alimenta os seus dias.
A vida é aqui-agora!
E então, vamos fazer um livro?

domingo, 19 de junho de 2011

Sobre o futuro e outras previsões

Você já parou para pensar como estará sua vida daqui a uns 5 anos, mais ou menos? E quanto ao destino, você acredita mesmo nele? 
Ok! Então preste atenção nestas valiosas dicas e logo descobrirá o modo mais verdadeiro para superar futuros fáceis de se prever, se tornar o escritor da sua história e desvendar a única lição que a vida realmente exige que se saiba.
Destino. Futuro. Desafios. Não existe um exemplo melhor do que a escola para se falar destas coisas, não é mesmo? É lá que tropeçamos na maioria das perguntas mais difíceis que encontramos pela vida, conhecemos gente de todo tipo, além de ser um lugar onde se passa o tempo todo só na expectativa, pensando no amanhã.  Mas me diga uma coisa: estudar, para que? 
Pois bem, mas antes de dar sua resposta, saiba que existem certos problemas bem mais importantes que suas soluções. Às vezes é bom não ter tanta certeza sobre as coisas, estar pronto a duvidar das “verdades enlatadas” e, acima de tudo, perceber que grandes dúvidas são respondidas com questões ainda maiores, não com afirmações pomposas e vazias. 
Eu já ouvi todo tipo de resposta para aquela pergunta. Do óbvio: “estudo para ser gente”. Ao sincero: “estudo para não ter que ir trabalhar ou ficar em casa”. Passando pelo ambicioso: “para ganhar dinheiro”. Este último não deve saber que no Brasil, infelizmente, dinheiro e educação nunca andaram juntos, pelo menos não em público. No entanto, a réplica que mais me agrada é sempre a do intrépido: “não sei, mas vou estudar e um dia lhe darei a resposta certa”.
Alguns têm problemas com números, outros com palavras, uns com os dois, e ainda existem aqueles que só têm problemas. Mas quer saber, na vida a gente não precisa saber fazer tudo. Mas é sempre bom procurar aprender a fazer pelo menos uma coisa direito, e aí, talvez tentar ser o melhor naquilo. Isso foi dito pelo mestre Nestor Arduini numa aula de matemática, e para falar a verdade, quase não lembro mais nada daquela matéria, contudo, foram estas palavras que me encorajaram a seguir adiante, sem remorso por não compreender direito as leis de Descartes e me permitindo enxergar sempre as virtudes antes dos defeitos. Entende? 
Todos nós temos uma missão, uma Arte escondida em algum canto do nosso íntimo. Algo em que acreditamos, que sabemos fazer bem, através da qual podemos enxergar a verdade das coisas muito além do óbvio. Ocorre que ao invés de lutarmos pelos nossos sonhos, muitas vezes, acabamos perdendo tempo com coisas que não nos acrescentam nada, que nos põem pra baixo e nos fazem “perder de ano”. 
É bem verdade que a maior parte das coisas que aprendemos na escola nunca será usada. Todo o esforço para decorar aquelas regras de álgebra talvez tenha sido inútil; quem sabe, você nunca mais volte a falar sobre análise sintática, mapa da América Central, nem Guerra do Paraguai... Mas vai saber?! No final, a vida é como uma prova: a gente pode até manjar do assunto, mas não há como garantir quais questões cairão. Por isso, é bom estar preparado para enfrentar esse monstro chamado ignorância.  A vida não se resume a certo ou errado, mas é bom saber.
Nosso maior patrimônio não são apenas as certezas ou o que a gente aprende, mas principalmente nossas dúvidas, tudo aquilo que nos faz “sair do lugar” e tentar compreender a vida, lutar para que ela seja mais humana, digna, alegre e boa. Enfim, este tipo de patrimônio vale muito, por isso nunca poderá ser perdido.
Ninguém pode escolher o lugar onde nascerá, o corpo que irá ter, nem a qual família pertencerá, contudo, tenho a convicção de que, embora não seja nada fácil, todo homem pode ser o dono do seu destino, desafiar sua sina, sonhar.
O futuro está nas mãos de quem sabe pensar, de quem tem atitude e ousadia para se tornar o melhor que se pode ser. E para isso, não existe arma mais eficiente e apropriada que o conhecimento.
Portanto, estude, leia. Se for preciso, releia. Nunca hesite em questionar aquilo que não entende ou não concorda. O futuro ainda não foi escrito, não perca tempo tentando adivinhá-lo. Também não limite-se a ser só o que a vida lhe impôs. Sempre é possível ser mais. Então tenha coragem. Lute. Seja!

* Ilustrações de Tigão.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Super ego

(Paulo SS)
Feito sob medida para o seu riso
este não será um poema da moda
não terá tristeza maldade ou dor
nem fará sofrer seus 5 corações.

Este poema foi enxugado às pressas
entre as manchas dum papel toalha
num instante de projeções claras
sem expectadores para impedir.
Este poema será livre como todos os grafites
prensados no centro daquela 1ª segunda-feroz
que fazem da banca de jornal nosso livro dos dias,
uma Arte tão leve que só vale quando solta.

Mas meu bem, preciso dizer:
isso não é um poema
nem nada.
Sou eu.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Raquitismo Sentimental

(Marcelo Gerace)
A tua razão chegou com atraso de quase 3 horas
exatamente quando eu não precisava mais
a bebida acabou antes da minha sede
como sempre.

Pede informações a estranhos de como chegar fácil
mesmo sabendo que não tens mais para onde ir
pois minha companhia não está do teu lado
como antes.

A sua ditadura verbal entupiu as palavras de deveres
minhas mãos salivaram pelos sobejos do teu abraço
e a falta de confrontos foi o último dos sintomas
como tudo.

Dei minhas armas para tua proteção e atirastes no meu peito,
depois só restaram uns dois ou três motivos para ser triste
quando minha alegria é que tu nunca serás mais um deles
como jamais.

sábado, 4 de junho de 2011

Referências biográficas ou troca de figurinhas

A maioria dos meus heróis não tem superpoderes, força fora do comum ou qualquer outra virtude inata extraordinária que os tornem dignos de admiração. São quase todos anônimos, gente que enfrenta filas todos os dias, com contas a pagar, rotinas fatigantes e tantas outras aporrinhações iguais às nossas. 
(Paulo SS)
Travam lutas desleais para não ceder ao impulso natural de responsabilizar o destino ou outras pessoas por nenhum dos seus fracassos, mesmo os herdados.
Meus heróis estão por aí, andando com vontade. São tipos que não conseguem ignorar o que não é certo, fazem do inconformismo seu alimento, seu álibi para nunca tolerar as injustiças e crimes que se tornaram paisagens do nosso cotidiano.
São os que se negam a fazer o que é errado, ainda que a maioria o faça.
Não recuam, nem negociam coisas que não têm preço.
Conservam suas palavras, ainda que nunca tenham voz.
Meus heróis não herdaram a vocação para o sucesso através de nepotismos nojentos. Enfrentaram a tirania arrogante de quem vê o passado como único elemento capaz de determinar o futuro.
Meus heróis são raros. Alegrias e dores transparecem em cada átomo dos seus corpos, não sabem sentir comedidamente, pois desconhecem a medida burguesa de corações exatos e frios.
Meus heróis não nasceram para ser. Eles se fizeram. A partir daí, já são os melhores. Agora me diga, como são os seus?

domingo, 29 de maio de 2011

Para ninguém


(Marcelo Gerace - Inveja)

Separe as suas 10 melhores mentiras deste ano.
Recite as historinhas tristes da infância que não teve.
Carregue a expressão com seu monopólio da pior dor.
Estrangule a paz dos corações sem dúvidas.
Mutile todo desejo exibido em trajes molhados.
Boicote as lágrimas que tentam lhe causar remorso
e tenha um bom dia!

P.S.
Para quem acaba de sair daquela fossa, você até que não cheira mal. Mas não espere que os agentes da passiva lhe protejam quando o seu perfume vencer.
Eu amo muito mais do que a amei, mas ninguém saberá disso.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Depois da 24ª hora


(Erick Silva)
Hoje é um tempo com nada digno de ser contado,
medido em pulsos imóveis dos grandes ponteiros
vigilantes de cárceres da paz, que nos prendem
em tempos sem lembranças de como ser gente.

Dias que provei todos os gostos, bichos e cantos
meu miocárdio flertou com os “nãos” mais inalteráveis,
colecionou a solidão anunciada dos que me adoraram
e no fim, só amei aquilo que não consegui degustar.

Perdido na devassidão dos verdes anos, acordei tão alto
a ponto de enxergar o mundo inteiro sem abrir os olhos,
disputar as guerras mais intensas sem sair do lugar
e disparar beijos concentrados nos alvos mais distintos.

Já dancei músicas que só ouvi uma vez.
Sonhei com coisas cujo nome nunca soube.
Conheci os amigos que sempre quis ter
e desconfio que um dia, eu até fui feliz.

- Oh, que horas são?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Manual hereditário de sobrevivência


Pulando a janela durante a madrugada, roupas socadas na mochila, pouca grana e alguém esperando. Ou não. Enfim, existem muitas maneiras de se saí da casa dos pais.
Seja fugindo ou pedindo a bênção, as últimas palavras trocadas na mística hora da despedida ficam gravadas por toda a vida, consolando ou agredindo.  As razões da saída variam muito, mas acabam perdendo a importância quando se está sozinho no mundo e a vida apresenta desafios tão bárbaros que forçam a dar atenção e valor somente ao que de fato interessa.
De Franz Kafka a Jorge Amado formou-se uma literatura bem peculiar sobre o fantástico dia em que saí de casa. O que me atrai nestes textos não é propriamente sua qualidade estética, mas a honestidade de palavras meticulosas endereçadas exclusivamente a um indivíduo.
Existe certa intromissão em se apossar deste tipo de coisa, como ler uma carta alheia sem a permissão do destinatário. Gosto principalmente das dicas de como proceder longe de casa, os manuais hereditários de sobrevivência.
Bem, hoje minha filha completa dois meses, por isso, embora pareça cedo para dar-lhe conselhos, reproduzirei dois escritos que considero modelos de conduta.
Os dez mandamentos cunhados pelo professor Manoel Ribeiro alcançaram fama graças ao seu rebento, o escritor João Ubaldo Ribeiro, que ao que tudo indica, fez excelente uso deles. Segue relação do que não ser: 
(Flávia Barros - Jóia)
1. Não seja irresponsável;
2. Não seja colonizado;
3. Não seja calado;
4. Não seja ignorante;
5. Não seja submisso;
6. Não seja indiferente;
7. Não seja amargo;
8. Não seja intolerante;
9. Não seja medroso;
10. Não seja burro.
Pois bem, D. Julieta soube resumir em apenas três regras os princípios que o jovem Drummond seguiria por toda sua vida. Num caderno de notas do mestre há a transcrição manual sob o título “Recomendações de mamãe”:
 1. Não guardes ódio de ninguém;
2. Compadece-te sempre dos pobres;
3. Cala os defeitos dos outros.
Amém.
No dia em que Flora nasceu tentei escrever algo que pudesse reproduzir o que sentia naquele instante, um esforço de registrar as impressões frescas daquele amor que se apoderara do meu coração, algo singelo e plural. Mas acho que não fui tão bem sucedido quanto gostaria. Apesar disso, entre os pensamentos mais variados e desconexos que tive naquela ocasião, enquanto ninava-a nos meus braços, lembrei destes conselhos citados acima e pensei alto: “você terá um bom coração, será uma pessoa do bem”. Esta foi minha única prece, minha primeira ordem e presságio.
 Até hoje continuo sem compreender a dimensão da ruptura que se sucedera ali, mas estou certo de que a maior lição de vida que aprendi não foi dada pelos meus pais, muito menos encontrada em depoimentos de antigos estranhos. O código que sigo foi transmitido pelos olhos da pessoa que mais amo e contém a única lei onipotente e eterna: jamais fazer algo que possa ofender uma criança.