terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Existe leitor em SP?

O Ninguém Lê não bombou, nem deu grana, nem foi notícia. Para a maioria, isso representa um fracasso. Mas pra mim e pro meu mano Victor Rodrigues, o Ninguém Lê tem sido um grande exercício de aprendizado, no qual autor e público discutem o livro - sem misticismo. Não sei descrever a grandeza que existe nessa mobilização consciente para debater e tentar entender melhor nossa literatura. 
O Ninguém Lê está se firmando como uma genuína escola popular de literatura. Embora quase todos os participantes se conheçam dos saraus, as discussões não ficam nos elogios ou críticas gratuitas. Ouvindo o autor, temos conhecido o processo de construção de cada livro e, a partir daí, pensá-lo em várias dimensões. A maturidade das obras tem levado a questões que transcendem os âmbitos sociais, literários e estéticos. 
Acompanhei o lançamento de mais de 70 livros nos saraus de SP durante esse ano, mas sei que ali não há espaço para problematizar minimamente essas publicações. Também tenho constatado uma super valorização (idealizada) da tradição oral em detrimento da escrita. Mas quem consome essa tal literatura marginal? Quem lê em SP?
Admito que esses encontros têm me tornado um escritor mais consciente do meu fazer. Estamos discutindo nosso tempo. As reflexões que surgem nos encontros do Ninguém Lê possibilitam pensar a literatura contemporânea independente com o pé no chão, levando os livros mais a sério, procurando dar a atenção que cada obra merece. 
“As obras poéticas são com frequência mais importantes, para o estudo de suas épocas, do que as mais fiéis narrações históricas. As últimas nos dão somente os elementos pessoais extraordinários e importantes, que são o menos permanente em seu efeito histórico; as primeiras, por outro lado, nos oferecem um panorama da vida diária das massas que é constante e permanente em seus efeitos, com duradoura influência sobre a sociedade. O historiador não relata estas cousas porque as supõe conhecidas e evidentes."
(citação de Kautsky extraída do livro "Os marxistas e a arte", de Leandro Konder)

Não pretendemos enquadrar as obras em termos academicistas nem reduzi-las a estereótipos, mas compreendê-las em suas virtudes e pecados (por que não?). O intuito é reverberar, instigar a leitura mais atenta. 
Pela disposição e fé no Ninguém Lê, agradecemos aos autores Emerson Alcalde - (A) Massa, Daniel Minchoni - Escolha o título, Rodrigo Ciríaco - Te pego lá fora e Fuzzil - Catturra.
Voltaremos no próximo ano com ainda mais força. Afinal, não basta lê; é preciso discutir. Vamos juntos!